Damocles – Primeiro Capítulo

Damocles 01

Aaron

– SSHHHH!

– Eu estou em silêncio.

– Eles já estão indo embora.

– Será que vamos escapar?

– Mamãe…

– Cale a boca da sua filha senão estamos todos mortos.

– Que ruído é esse?

–Não sei Rodrick!

– Bryan vai lá olhar

– Por que eu?

– Você é menor, e mais difícil de se ver.

– Mas e se eles me virem?

– Aí você matou todos nós. Não seja visto!

Lentamente o filho menor do fazendeiro se coloca por sobre a bancada que dá acesso ao quarto oculto do celeiro. De todos os lugares da vila esse é o mais seguro, e as pessoas dessa família têm de agradecer ao velho Malk e sua amante Eddith, que em tentando esconder seu adultério criaram inadvertidamente o local mais seguro da vila. O celeiro ficava nos fundos da propriedade, e o velho Malk em suas aventuras, construiu uma sala na parte de trás do celeiro com uma porta acessível somente pela bancada superior próximo a onde se estocava palha e comida para os animais. Como a porta era muito pequena e ficava obstruída pelo feno e outros produtos, levou muitos anos para que alguém descobrisse a existência dessa porta. Foi só quando o filho do ferreiro Brego foi levado até lá pela jovem Falia. Se foi ela que descobriu ou se Eddith contou, não se sabe. Como Brego era um tanto tolo, ele espalhou a notícia do “local secreto”. E como se pode esperar, o segredo não durou muito tempo. Os Jovens da aldeia de Malkadir logo passaram a usar o fundo do celeiro para suas diversões e o Velho Malk acabou perdendo seu local secreto e Eddith desistiu de se encontrar com ele. Mas nada disso interessava ao jovem Bryan que agora se esgueirava pela portinhola por sobre a bancada e engatinhava no meio do feno tentando ouvir o que acontecia. Os sons não eram muito consoladores, pois ele ouviu nitidamente a voz de Merfina, chorando enquanto uma outra voz mais grave grunhia em um ritmo repetitivo. Havia também o gemido baixo, e esse ele não conseguiu identificar, provavelmente do pequeno Tory, que soava meio que a um gorgolejo, quando parou num suspiro final.

Quando se preparava para voltar ao local secreto, uma luz bruxuleante chamou sua atenção e apesar de estar com calor no meio daquele feno todo, sentiu um frio que enregelou sua espinha.

Um dos invasores estava se aproximando com uma tocha na mão e uma das garrafas de combustível da velha bomba. Sua intenção era clara quando se via que outras casas da vila já estavam em chamas. Bryan pensou que deveria voltar para avisar os outros. Mas se fossem vistos ninguém sobreviveria. E como o “lugar secreto” só tinha uma única entrada e saída, eles morreriam todos assados no incêndio do celeiro. Sem saber o que fazer o pequeno Bryan ficou paralisado no lugar enquanto o bandido, um dos 13 que invadiram a vila para pilhar e se divertir com as filhas dos fazendeiros, conforme eles mesmos disseram, vinha se aproximando do celeiro. Chutou o pequeno Tory que jazia imóvel na porta e quase caiu ao escorregar numa poça próxima ao pescoço do menino. A tocha caiu nela e se apagou. O bandido xingou e chutou a cabeça para longe do corpo de tão violento que foi o chute. Ele derramou o combustível na palha e voltou para seus companheiros para pegar outra tocha.

Bryan imediatamente correu para dentro do “local secreto”. Se eles tinham alguma chance de escapar essa chance era agora.

– Vamos! Eles vão queimar o celeiro!

– Queimar? Mas como vamos sair?

– Mamãe!…

– Cale a boca da sua filha! Senão morreremos! Vamos tentar sair no escuro. E fugir para o bosque.

– Calma filhinha, calma, a mamãe vai te ajudar a ficar bem, mas você precisa ficar quietinha, senão os homens malvados vão nos pegar. Vamos, vamos devagar querida, a mamãe te ama.

– Por aqui pessoal. Vamos em silêncio. Isso, pelo feno. Se a gente chegar à porta conseguimos correr.

– Cuidado! Ele está voltando.

– Mamãe!

– SSSHHH!! Se esconda filhinha. Os deuses vão nos proteger. Vamos ali. Esconda o rosto na mamãe.

– Ai, por Comuor! Ele está trazendo a tocha!

– Nós vamos morrer!

– Mamãe!…

– SShhh… Tudo vai ficar bem meu amor. Tudo vai ficar bem.

Quando Bryan olhava aterrorizado para a tocha que se aproximava, nas mãos do mesmo bandido que tinha deixado a anterior cair no sangue do pequeno Tory, viu no bruxuleio das chamas a face cruel daquele que ia ceifar suas vidas. Uma face bruta e desinteressada, a face de alguém que viu e cometeu muitos horrores. A face que com a barba mal feita ostentava um sorriso de deboche. Como se dissesse: “Eu sei que vocês estão aí, e vou terminar com suas vidas miseráveis seu bando de ratos.” A face que apresentava subitamente uma protuberância de metal, que num átimo surgiu por entre os olhos, enquanto o corpo estacava e posteriormente caía ao chão por cima da tocha revelando na parte de trás da cabeça um machado de arremesso fincado no crânio e uma figura enorme delineada na sombra do fogo da vila que queimava por trás. Essa figura se aproximou e sem esforço algum puxou o cabo do machado de arremesso que ficou cravado no crânio do malfeitor. Com um único braço ele ergueu o malfeitor pelo cabo do machado e sacudindo a mão libertou o machado de onde ele estava preso enquanto o corpo caía com um barulho molhado por sobre a poça de sangue que se misturava à poça do jovem Tory. A figura se virou e caminhou calmamente em direção às chamas e ao ruído dos gemidos de Merfina. Os gemidos pararam em um som molhado seguido de um baque surdo, como quando um melão cai ao chão, seguidos esses sons de comentários dos bandidos.

– Já acabou Jerr? É a minha vez com essa rabudinha!

– Cadê você Jerr? Um som gorgolejante suspende a próxima fala, seguido de um baque.

Bryan toma coragem e sai de seu esconderijo para ver o que acontece. E ao sair se depara com uma cena que vai ficar gravada para sempre em sua memória infantil, e mesmo adulto poderá dizer: “Quando eu era pequeno, da idade de vocês, um grande herói visitou a nossa vila. Os bandidos tinham matado quase todos e estavam fazendo muitas maldades com a vovó Merfina, mas ele salvou todos nós”.

Bryan olhou encantado a precisão dos golpes que decepavam braços e cabeças dos bandidos, que iam sendo um por um fulminados pela fúria justiceira do herói até então anônimo.

Merfina correu daquela cena e encontrou Bryan próximo ao celeiro. Ele não a deixou prosseguir e a trouxe para mais perto de si. Pôde ver que ela sangrava em diversas mordidas pelo corpo e mais profusamente por entre as pernas. Bryan a abraçou e a levou em direção ao bosque próximo, onde pôde ver o gigante, pois ele era quase o dobro do tamanho dos bandidos, destruindo, pois essa é a palavra que melhor descreve sua eficiência, aqueles que vieram pilhar e massacrar a vila. Um gigante bondoso, pois massacrava os bandidos e salvava os aldeões que ainda não tinham sido mortos.

Um dos bandidos correu do massacre em direção a Bryan e Merfina que estavam escondidos. Merfina se encolheu de medo. E Bryan tomado de coragem gritou:

– Aqui herói! Esse está fugindo por aqui!

– Maldito garoto! Eu vou te matar!

Quando o bandido se aproximava de Bryan com a espada em punho, mais uma vez uma ponta metálica surgiu, dessa vez do seu tórax, e o bandido amaldiçoava Bryan enquanto caía morto no chão. O Gigante acabara de matar todos os bandidos. Bryan retirou o machado de arremesso do corpo do malfeitor e foi humildemente se aproximando do gigante.

– Senhor, aqui está o seu machado.

– Obrigado garoto. Esse era o último deles não?

– Creio que sim meu senhor.

– Bom, muito bom. Aquela menina que estava aqui está bem?

– A Merfina está bem, embora esteja sangrando muito.

– Não aguento esse tipo de pessoa.

– Graças ao senhor nossa vila está salva.

– Não foi nada.

– O senhor se feriu?

– Isso foi só um arranhão.

– Se eles não mataram a velha Hilda, ela pode tratar o senhor.

– Então vamos ver isso.

Eles caminharam pela vila e realmente a velha Hilda estava a salvo. Como era muito surda, estava dormindo em casa e não ouviu nada do que aconteceu. Quando acordou ficou muito triste com o que ocorreu. Pediu que lhe trouxessem os feridos e ao rezar preces para Atal, uma aura rósea brilhava em suas mãos enquanto os ferimentos iam magicamente desaparecendo.

O Gigante olhava meio assustado para a cena e murmurava: “Bruxaria”

Bryan o convenceu de que Hilda era clériga de Atal, e que ela poderia ajudá-lo. Ele só acedeu depois de um olhar mais penetrante da bondosa clériga que o repreendeu falando:

– Eu não sou nenhuma bruxa menino! Venha aqui para eu poder curar esse corte. Não quero que o nosso salvador morra de uma doença da sujeira.

Embora o gigante fosse estupendamente forte e ágil, ele se mostrou gentil e quase infantil com a senhora Hilda que o curou, e com uma palmada leve o mandou seguir. Embora ele tenha aceitado o tratamento ainda assim murmurava, “Bruxaria…”

Os aldeões agradeceram muito ao herói e após serem ajudados por ele a enterrar seus mortos, coisa que os emocionou muito, especialmente o enterro do pequeno Tory, queimaram os corpos dos invasores e o Gigante escolheu uma das armas deles como recompensa. Os aldeões decidiram dar um jantar de despedida para o herói, e quase se arrependeram, pois ele comia muito, como só mesmo um gigante poderia fazer.

Ao sair da vila Bryan agradecido perguntou-lhe:

– Como o nosso salvador se chama?

O Gigante sorriu meio desajeitado e falou:

– Aaron.

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3 comentários sobre “Damocles – Primeiro Capítulo

  1. Nossa! Gostei muito! Você escreve super bem! Fiquei imaginando isso virando um filme! Acho que você poderia pensar em fazer uma versão em inglês e enviar para os estúdios americanos… Parabéns! Muito sucesso!

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  2. O que prende o leitor são as primeiras páginas de um livro. Nesse caso, fiquei totalmente acorrentado. Não consegui parar de ler. Imagino o que vem depois. Parabéns. Está realmente cativante.

    Curtido por 1 pessoa

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